Casualidades efémeras: ensaio 1
Tinha areia nos dedos dos pés, os olhos quentes e suor no
rosto. Era verão não podia ser diferente. Cheirava a creme de coco e baunilha,
misturado com a salina no corpo que evaporava sob a tensão quente dos raios
solares. Estava na hora de mergulhar em águas frias e buliçosas, de rasgar a
preguiça em pedaços e caminhar diante de todos, naquela passagem que se faz até
ao mar. Quando chega de rompante, como um estalar de dedos, a voz da minha
sobrinha, com largo entusiasmo e vigor:
- Titi anda comigo. Quero ir ver o peixe.
Ainda embriagada do efeito do sol respondo:
- Qual peixe?
A menina de mãos geladas e enrugadas de permanecer na água,
salta em cima de mim apertando-me o pescoço com força, fazendo-me sentir os caracóis de
cabelo molhado. O choque térmico não foi tanto mas deu para acordar.
- Já vais ver!
Pelas mãos da rapariga tracei um pequeno trajeto e comecei a
avistar um aglomerado de gente, que estava muito entusiasmada. Havia veículos
que transportavam caixas. As gaivotas sondavam um local pequeno. E o cheiro era
cada vez mais intenso a mar.
A miúda estava em pulgas e começou a tropeçar nos pés da
multidão. Furando entre os espaços vazios levou-me até ao início de uma jornada banal,
quotidiana, simples e complexa, repleta de ciência e tradição.
As gentes que, como eu, estavam só por lá a descansar e revitalizar, sobreponham-se para tentar perceber melhor o que se estava a passar. Quase todos tinham um telefone ou uma câmara na mão e, tal como eu, decidiram guardar cada momento, não sei se para divulgar nas redes sociais, se para mostrar aos familiares, se para recordação pessoal. Eu sei que eu estava a captar frações do tempo que jamais se repetiriam. Não que este processo não fosse habitual, mas aquele momento específico sabia que era efémero e as pessoas que compunham o quadro que queria pintar só estavam de passagem.
No mar de gente surgiram os homens mais fortes, mais dedicados e com uma expressão no rosto robusta, de quem está habituado a trabalhar sob o escrutino alheio.
A minha sobrinha era a mais empolgada. Senti que me puxava a cada instante. Passei para o outro lado do cenário com alguma rapidez, um pouco receosa de perder a miúda. Se bem que foi ela que me posicionou nos sítios exatos para cada fotografia.
Havia um rapaz muito bonito e moreno a ajudar no processo, era sem dúvida o centro das atenções porque de certa forma tinha pinta de John Lennon, versão reggae portuguesa.
Todos estavam à procura da fotografia perfeita, todos à sua maneira. Eu não a procurei, porque tive a sorte de ser levada até ela, como um entrecruzamento fluido.
Que estranho, estes tratores na praia. É preciso tanta força de tração? Para quê?
Não era só um. Parecia-me, com o corpo mais fresco e centrado no agora, que havia um mecanismo harmonioso - onde um processo dava lugar a outro. Afinal o propósito de todo o cenário não seria vislumbrar os turistas. O propósito cabia no tecido mercantil, no ganha-pão dos que vestiam o macacão.
No entanto é interessante como duas realidades se fundiram no mesmo plano.
Um homem corria para salvar um insuflável. Na direção oposta outros se carregavam mar dentro para tirar a melhor fotografia.
Tomei outra perspetiva e, aliada aos meus sentidos, foquei a minha atenção no que estava a acontecer.
A multidão comentava com fulgor:
- Aquilo são sardinhas?
- Eles vão abrir a rede para ver o que apanharam.
- Mas aquilo são sardinhas?
Cada vez mais se sentia o aperto do calor dos banhistas, cada vez mais surgiam gadgets, máquinas fotográficas e olhares curiosos.
Quem estava a trabalhar não se importava minimamente com o panorama. Aliás até mantinha uma certa postura e brio nos movimentos.
Quando o nó da rede se desfez por fim, todo o peixe deslizou pela lona azul.
Estalavam com a cauda, contorcendo-se vivamente.
O estrebuchar dos peixes podia ser um pouco violento para os mais sensíveis, como as crianças que demonstravam o seu desagrado face ao que viam.
No entanto esse movimento era sinónimo de que o peixe era fresco e por isso uma opção saudável para colocar nos pratos dos que apreciavam.
O relógio informava que eram 11h22 da manhã.
Rapidamente todos os pescadores apanharam um cesto e se ajoelharam perante o que o mar lhes tinha ofertado.
Rapidamente todos os pescadores apanharam um cesto e se ajoelharam perante o que o mar lhes tinha ofertado.
Começaram a escolher o melhor peixe, enquanto se consumavam olhares dentro dos curiosos.
- Aquilo não são sardinhas.
- Não. São cavalas senhor!
Depois de cada um ter enquadrado e captado o que representava o melhor momento para si, começaram a dispersar pela areia quente.
Os pescadores e ajudantes alertavam para o perigo da transição dos veículos. Estava a terminar mais uma tarefa corriqueira para muitos mas impressionante para os leigos.
A minha sobrinha continuava energética e pedia-me para mudar de sítio constantemente, para poder ver melhor o que estava a acontecer.
Percebi então que ela era a perfeita aliada do acaso.
Já tinham começado a colocar a cavala em caixas próprias para exposição, quando se juntaram um grupo de interessados em comprar um kilo ou dois para levar para o almoço.
O peixe era fresco, acabado de pescar. Também encontraram na rede um polvo e uma alforreca.
A rede piscatória não descriminou o que apanhava, trazendo à costa o produto do trabalho árduo de muitos.
Estava na hora de arrumar o material e preparar a segunda ou terceira ida ao mar.
Havia sorrisos rasgados nos rostos dos transeuntes.
Levantei a cabeça e reparei que surgiam a planar um número crescente de gaivotas, não em direção ao peixe que tinha sido apanhado, mas à zona de rebentação das ondas.
Aqui se fundia uma representação do tecido cultural da margem-sul com o ecossistema marítimo da Costa da Caparica.
Quando o sósia do John Lennon apareceu com o cesto de peixe no seu regaço, as gaivotas juntaram-se em seu redor.
Foi então que reparei que aquele peixe voltou a ser colocado em água e que naquela zona da praia, estavam inúmeras cavalas, já sem vida, a flutuar e a serem levadas pelas ondas.
Talvez seriam o produto excedente impróprio para venda.
- Titi tem tantas gaivotas aqui.
- Estão a comer, também precisam.
- Também tenho fome!
- Então anda - vamos almoçar.
- Quero uma bola de berlim...















