Cronologia de uma estrada cortada

Deviam ser umas sete da manhã quando aquele filho da mãe do despertador tocou. Era um crocodilo verde a tocar sininhos à espera que lhe mexesse na barriga para o calar. Que lindo despertador. Olhei para o tecto e concentrei-me na luz, como fiz antes da operação. Respirar dez vezes, contar em cada expiração. Tinha os olhos secos, a cabeça a latejar e a luz difundia-se no olhar. Os candeeiros são meu mantra, tal como o sol, limpam um bocado do tudo que tenho pela cabeça.

- Porque sou tão fraca?

Levanto-me com peso nos ossos, com os dentes cerrados, com os músculos presos de tensão. Olho para o lado e vejo três garrafas de água vazias. Olho para o chão e vejo as meias que a minha mãe comprou na rua da Cedofeita. Olho para mim, já no espelho, e só vejo palavras. Entorpecida no mar de histórias que criei em mim mesma, ponderei, mais uma vez:

- Porque é que algumas pessoas são mais pragmáticas e outras gostam das coisas bonitas?

A resposta estalou de imediato para me roubar mais um pouco de energia: existem pessoas que vivem o que o destino lhes põe na mesa e recorrem ao seu conhecimento para tornar as coisas interessantes. Existem aqueles que lutam para criar memórias e para atingir a felicidade. Mas também existem aqueles que perpetuam a dor, que não entendem que a maneira de ultrapassar as dificuldades é vivendo-as, aceitando-as e louvando-as com a edificação de um futuro melhor. Estar à espera que as coisas se resolvam na base da fé ou do destino é o mesmo que esperar que os outros façam o nosso trabalho. O mesmo que acreditar que água com gelo é água congelada.

Sabemos bem o que significa ter um exemplo virtuoso de tudo o que achamos ser ideal, mas tudo tem um tempo e propósito específico. Amar não é castigo. Ser feliz não é de ter culpa. Ultrapassar e transformar o meio que nos rodeia e ser feliz não é injusto. Injusto seria viver na obscuridade do que não controlamos, afundar as esperanças pela injustiça de sabe se lá o quê. Como a teoria da caverna de Platão, quando nos confronta com dois tipos de realidade. Aquela que estamos acostumados a ver, e que achamos que é a verdade absoluta e aquela que descobrimos por rebeldia, por coragem, mas que acaba por nos cegar por ser tão forte.

A questão passa por decidir se devemos relembrar e escravizar o corpo pelo trabalho para estar anestesiado pelas regras aceites na sociedade (arbeit macht frei) , ou se devemos dissolver a dor através da nossa resolução da felicidade

para mim é:

Fazer o bem sem compromisso com o retorno, ajudar aqueles que não se podem ajudar, dar um beijo àquele que não recebe carinho, dar um abraço a quem tem um fardo muito grande sobre os ombros, dar a mão a quem perdeu o rumo, dar de comer aquele que diz que nada quer, dar a beber aos que trabalham ao sol, devolver dinheiro aos pedintes da nossa rua, ouvir o violinista profissional que não calça meias mas tem sapatos. Fazer um cheesecake de frutos silvestres para os outros provarem o amor que lhes dedicamos ao fazê-lo. Jogar um jogo de cartas com a miúda só porque ela gosta. Dizer à mãe que está mais magra e mais nova porque isso lhe dá um beijo na alma. Dizer à irmã que ela fez o melhor que pude e é a melhor psicóloga do mundo. Dizer à outra irmã que sempre foi uma chata mas que nunca me deixou ficar mal. Dizer ao meu pai que compreendo. Dizer a mim mesma que não faz mal tentar e ser persistente, não faz mal colocar o coração nas mãos e sobretudo não faz mal ajudar.

Cada um dá aquilo que tem. Cada um de nós é espelho de tudo o que fez, de tudo o que passou e de todos os sonhos que leva no peito.

O meu é bem claro:

Ouço água a cair, um pequeno épagneul breton a saltar-me para as pernas, a música Memory da peça de teatro Cats tocada por um cão-boneco vestido como baterista de uma banda de música, a minha mãe cheia de coisas no regaço, com a cara ruborizada, de avental azul na cozinha velha cheia de fumo. As minhas irmãs com cabelo à rapaz, eu sem percepção de mim. A minha tia São a rir-se ao fundo, o meu tio Agostinho a descer as escadas, a minha tia Lina a brincar com o Snoopy, o meu tio Manel a fazer que ia tropeçar numa rapariga bonita, o meu pai feliz no meio de todos. A minha avó Laura a dizer-me que estou mais gorda, mas que tenho os lábios grossos dos Maias. O meu primo Tiago a chamar por mim: "Tia Clementina queres vir andar de mota?"

Também estavas tu, meio escondido, a olhar-me mas sem me quereres ver. Chamei por ti, mas não quiseste falar. Atirei-te pelo chão um planeta que rolou bastante e quando chegou até ti, já tinhas desaparecido.

Pestanejei muitas vezes e limpei o rosto do medo que tinha. Já cansada de olhar para aquela luz, igual à da cirurgia, deixei as pálpebras deslizarem quentes e senti o veneno a entrar.

Não valia a pena lutar mais contra o sono.
Deixei que ele me levasse, me levasse para longe, para onde sei que ninguém me pode tocar.