Casualidades efémeras: ensaio 2 (II)
Estavam lá todos os jornais de Ponte de Lima. Todos os jornalistas tinham uma máquina na mão. Os rapazes e raparigas da canoagem vibravam no peito, na cara, nos olhos e no cabelo molhado. Tinham a bandeira de Portugal em todos os lados.
Haviam canoas, sorrisos, crianças cheias de emoção. O ponto de encontro era no café da Havaneza. Estavam a transmitir em direto a prova.
Eu não me conseguia abster da emoção, nem sabia se devia captar tudo ou apenas aquilo que me feria como antigamente. Eu sabia que estava a captar um momento que jamais se repetiria, que ia ficar na memória. Tinha todas as células hipomaniacas, a suar de interesse, de amor pelas coisas, pelo que estava a ver. Estavam todos tão alegres que eu apenas deixei fluir a minha atenção para as minhas percepções sensoriais.
Sinceramente nem vi o momento exacto quando o Fernando e o Emanuel rasgaram a meta, eu só estava interessada nas reacções das pessoas que me envolviam. Que amor ao desporto, que fixação nas cores da pátria.
- Ah! C*r*l*o!
Ouvia-se como grito tenro que emancipava todo o fulgor da antecipação.
Eu só estava feliz porque toda a gente estava feliz em meu redor. Não captei o que me feria, mas o que me puxava o cabelo de prazer visual. Tudo me agradava, porque tudo fazia sentido.

O compasso dos acontecimentos era perfeito e eu sentia na pele, nos lábios e nas pontas dos dedos que aquilo era o que me fazia mover dentro da minha profissão, que eu tinha escolhido bem, que tinha escolhido com amor aquilo que queria fazer para o resto da vida.
Foi um verão muito importante. Foi a seguir a esse verão que o comunista fugiu-me das mãos para ser feliz com o amor da vida dele. Ai tanto que sofri, tanto que me matei para esquecer. Mas nesse processo todo descobri que nunca o quis no altar. Nunca senti que seria pai dos meus filhos e que por fim eu gostava da ideia dele ser revolucionário e um eterno querido, mas faltava-lhe aquilo que só vim a descobrir numa pessoa cinco anos depois.
Havia muito de Nine Inch Nails de mim ao peito, qual rapariga cheia de negridão na alma, tanta tristeza presa na boca e na garganta que só o Trent Reznor sabia falar para mim e comigo. Tinha mares de indie rock no peito quando queria sorrir para as coisas. Tinha um jazz melodramático quando queria ser snob. Um caribe mix para me rir e abanar as ancas. A Shakira na cabeça desde os 9 anos. O Piquet nem existia mediaticamente nessa altura (a não ser no barça). Corria campos e entrecampos de Fernando Pessoa. Adquiri o livro do desassossego e li metade, porque aquilo fazia-me mal à cabeça. Entretanto acabei de ler, mas percebi que eu e ele só nos gostamos em Álvaro de Campos e Alberto Caeiro. Li o Caim de Saramago e fiquei super contente dele chamar nomes ao senhor - ah que mestre! Agora sei bem porque ele o fiz. Só queria saber de certo modo, do mundo da criminologia e ciências forenses. Tinha feito um curso de Medicina Legal com o Pinto da Costa (o irmão do P. Costa do FCP), tinha escrito um estudo sobre a violência e criminalidade nos jogos virtuais, fazendo a comparação com o massacre de Columbine e o filme Elephant. Tinha muito para deitar para fora e eu não sabia bem porquê. Rasguei muito do que queria na Universidade do Minho e quando voltei para Ponte de Lima, no verão de 2012, tudo desabou. Caiu-me o dente de leite da frente, fiquei desdentada. Coloquei um aparelho nos dentes, meses mais tarde. Os meus amigos de três anos sumiram-se para os mestrados e para as terras deles. E eu não sabia mais de onde era. Só sabia fotografar com alma, escrever com o meu conhecimento e ter compaixão com o que me circundava.
Os miúdos entravam no chafariz e faziam toda a festa do mundo. Molharam tudo, ergueram a fotografia do Fernando no ar.
A Cristiana Pona estava lá, e não podia conter a emoção de ver o colega de anos a chegar tão longe.
Estavam quase todos os que me acompanharam no verão de 2004, todos olhavam para mim já não como a Sonecas, mas como mais uma estagiária do Cardeal Saraiva.
Até a religião passou por lá, sem se aperceber com um sorriso de orelha a orelha...
Haviam canoas, sorrisos, crianças cheias de emoção. O ponto de encontro era no café da Havaneza. Estavam a transmitir em direto a prova.
Eu não me conseguia abster da emoção, nem sabia se devia captar tudo ou apenas aquilo que me feria como antigamente. Eu sabia que estava a captar um momento que jamais se repetiria, que ia ficar na memória. Tinha todas as células hipomaniacas, a suar de interesse, de amor pelas coisas, pelo que estava a ver. Estavam todos tão alegres que eu apenas deixei fluir a minha atenção para as minhas percepções sensoriais.
Sinceramente nem vi o momento exacto quando o Fernando e o Emanuel rasgaram a meta, eu só estava interessada nas reacções das pessoas que me envolviam. Que amor ao desporto, que fixação nas cores da pátria.
Ouvia-se como grito tenro que emancipava todo o fulgor da antecipação.
Eu só estava feliz porque toda a gente estava feliz em meu redor. Não captei o que me feria, mas o que me puxava o cabelo de prazer visual. Tudo me agradava, porque tudo fazia sentido.

O compasso dos acontecimentos era perfeito e eu sentia na pele, nos lábios e nas pontas dos dedos que aquilo era o que me fazia mover dentro da minha profissão, que eu tinha escolhido bem, que tinha escolhido com amor aquilo que queria fazer para o resto da vida.
Foi um verão muito importante. Foi a seguir a esse verão que o comunista fugiu-me das mãos para ser feliz com o amor da vida dele. Ai tanto que sofri, tanto que me matei para esquecer. Mas nesse processo todo descobri que nunca o quis no altar. Nunca senti que seria pai dos meus filhos e que por fim eu gostava da ideia dele ser revolucionário e um eterno querido, mas faltava-lhe aquilo que só vim a descobrir numa pessoa cinco anos depois.
Havia muito de Nine Inch Nails de mim ao peito, qual rapariga cheia de negridão na alma, tanta tristeza presa na boca e na garganta que só o Trent Reznor sabia falar para mim e comigo. Tinha mares de indie rock no peito quando queria sorrir para as coisas. Tinha um jazz melodramático quando queria ser snob. Um caribe mix para me rir e abanar as ancas. A Shakira na cabeça desde os 9 anos. O Piquet nem existia mediaticamente nessa altura (a não ser no barça). Corria campos e entrecampos de Fernando Pessoa. Adquiri o livro do desassossego e li metade, porque aquilo fazia-me mal à cabeça. Entretanto acabei de ler, mas percebi que eu e ele só nos gostamos em Álvaro de Campos e Alberto Caeiro. Li o Caim de Saramago e fiquei super contente dele chamar nomes ao senhor - ah que mestre! Agora sei bem porque ele o fiz. Só queria saber de certo modo, do mundo da criminologia e ciências forenses. Tinha feito um curso de Medicina Legal com o Pinto da Costa (o irmão do P. Costa do FCP), tinha escrito um estudo sobre a violência e criminalidade nos jogos virtuais, fazendo a comparação com o massacre de Columbine e o filme Elephant. Tinha muito para deitar para fora e eu não sabia bem porquê. Rasguei muito do que queria na Universidade do Minho e quando voltei para Ponte de Lima, no verão de 2012, tudo desabou. Caiu-me o dente de leite da frente, fiquei desdentada. Coloquei um aparelho nos dentes, meses mais tarde. Os meus amigos de três anos sumiram-se para os mestrados e para as terras deles. E eu não sabia mais de onde era. Só sabia fotografar com alma, escrever com o meu conhecimento e ter compaixão com o que me circundava.
Os miúdos entravam no chafariz e faziam toda a festa do mundo. Molharam tudo, ergueram a fotografia do Fernando no ar.
A Cristiana Pona estava lá, e não podia conter a emoção de ver o colega de anos a chegar tão longe.
Estavam quase todos os que me acompanharam no verão de 2004, todos olhavam para mim já não como a Sonecas, mas como mais uma estagiária do Cardeal Saraiva.
Até a religião passou por lá, sem se aperceber com um sorriso de orelha a orelha...








