Casualidades efémeras: ensaio 2 (III)

O avião já tinha passado. Já ninguém duvidava do que havia acontecido. Faltava ele chegar. E faltava toda a gente o receber. De mãos corajosas e mente iluminada falei pelas últimas vezes ao comunista:

- O Fernando Pimenta chega hoje, vou ter de tirar fotografias, está bem?

O trabalho surgia em mim como uma flor, e eu tinha de o agarrar. Tinha muita criatividade no hipotálamo e na hipófise. Estava a derreter-me para me expressar. Então formatei o cartão de memória, coloquei a bateria a carregar pela milésima vez, nem olhei para o que vesti, porque eu só ia captar aquele momento para que o jornal tivesse como documentar a chegada. Na verdade o destaque dada à mesma foi muito pouco relativamente ao esforço que fiz.

Novamente no Largo de Camões estava tudo num alvoroço. Eu já me tinha desprendido um pouco do fulgor, porque já o tinha vivido na tarde que o Fernando e o Emanuel cruzaram a meta. Então com um desinteresse desapegado a tudo, fui levada pelas luzes, pelo correr da circunstância. Já só captava o que me feria. 


Reparei que estavam a teatralizar uma chegada já muito sentida. Estavam a intensifica-la, a colocar mais ênfase – para ser mediaticamente projetável. Não que me fizesse algum tipo de aversão, mas achava questionável: até que ponto se deve enfatizar, com recurso a publicidade, um único acontecimento? Decidi então sair da multidão por uns momentos e procurar um ponto de fuga. De repente percebi que havia um espaço enorme sem gente mas encaixilhado pelas centenas de pessoas que se mantinham na linha limiar da estrada, para ver o grande feito, o grande Fernando – aquele que chegava.

Coloquei-me então no meio dessa rua, sozinha, para me sentir no meio de olhares cruzados mas que não me viam, porque tinha o passaporte da indiferença na mão – a máquina fotográfica. 


Estava meia intrigada não sei bem com o quê, mas percebi então que alguma coisa estava para chegar, que havia uma razão para todos abrirem caminho. Tinha então chegado o Fernando Pimenta num autocarro tão grandioso quanto a sua vitória. Virei-me rapidamente e percebi que era a única jornalista cá em baixo, no meio da multidão, naquele exacto momento, naquele lugar específico. Foi nesse momento que vi, sem ver, aquilo que se tornaria .a melhor coisa na minha vida. 


Estavam todos tão empolgados, lá no cimo, todos tão contentes. De repente senti um calor enorme na cara, as minhas bochechas ficam ruborizadas e os meus braços mais tensos. Havia muita força, muita alegria e muita coragem num único veículo. Quase que nem me desviei do sítio onde estava. Tinha alguma adrenalina e estava a gostar daquele momento sagaz, rápido e de arrasto.


Não era só eu que estava comovida no meio da multidão. Aquele autocarro trouxe de rompante muita sinergia. Abalou a todos pela sua imponência. Havia muita alegria circundante, uma imensa paz e fluidez dos acontecimentos.

Às tantas o meu coração saltou-me para as mãos. Das mãos para o obturador e do obturador  para as pessoas. Deixei-me levar então pelo sentimento de arrasto que me comovia cada vez mais.


Não creio que tenha percebido na altura a dimensão do assunto. Nem sabia sequer onde é que a minha intuição me estava a levar. Cabidos 26 anos depois, sei perfeitamente porque de repente senti uma enorme fragilidade do ser, uma enorme comoção pelas coisas pequenas da vida. Mal sabíamos o que havia de vir, fizemos jus ao nosso trabalho que até hoje vigora.


As pessoas estavam famintas de ver o sucesso espelhado em palavras. Procuravam ideias, opiniões, constatações. Queriam ver os políticos juntos com os desportistas – é sempre uma imagem enfatizada do que se havia passado. Todos de bandeirolas na mão e coroas de papel na cabeça, sentiam um orgulho não imaginário e uma vontade imensa de gritar em coro, que os de Ponte de Lima são muito bons naquilo que fazem.


Saltei de sítio em sítio até chegar ao coreto, porque me disseram que por ser jornalista tinha direito de lá estar. Então, não porque achasse que o meu lugar fosse lá, mas porque aclamaram que devia estar lá, subi o coreto à espera dele.


Enquanto o esperava apercebi-me que não gostava de ficar acima das pessoas, porque elas olhavam muito para mim. Algumas não olhavam com olhos felizes. Em alguns olhos havia desdém. Noutros havia um brilho incomensurável, que alcançavam muito mais do que eu poderia imaginar. Dava para sentir em cada poro a agitação de todos. Havia todo o tipo de sentimentos e eu começa a sentir um íssimo cansaço, uma enorme fadiga mental – de observar a energia alheia. De me sensibilizar com os outros.


Quando .ele chegou, bem... Havia sorrisos e palmas e uma grande ode ao que se aproximava. O olhar era incisivo e metódico, não havia espaço para falhar. Era das primeiras vezes que fazia aquilo, tinha que mostrar o que valia. A imponência do seu carácter era visível a longa distância.

O Fernando tinha muita alegria no peito, era a terra dele que estava a apoiá-lo. Os amigos, a família e todo a conjuntura política e mediática tinha aberto um freio na agenda para o receber. Todos o estávamos a receber no coração, desde o Cardeal Saraiva, a SIC, o Alto Minho e o Porto Canal.


Notava-se na cara do Fernando a imensa humildade com que mostrava a medalha aos seus conterrâneos. Não queria de todo ser mais que eles, ou melhor. Queria sim partilhar a alegria que lhe custou tanto a atingir e que por fim lhe cabia nas mãos. Sabia que tinha percorrido um longo caminho, e que for fim, sem nunca ter desistido, alcançou aquilo que sonhava desde o primeiro momento que pegou numa pagaia. Porque é assim mesmo na vida, as coisas mais difíceis são as mais deliciosas de conquistar. 


Todos falaram um pouco da sua perspectiva perante a conquista de Fernando. Todos faziam o seu trabalho com um objectivo em mente. Uns para salvaguardar o seu posicionamento partidário, outros para demonstrar que são bons naquilo que fazem, eu estava só a apreciar o que se estava a passar, bem em frente aos meus olhos.

Naquele momento não pensei em mais nada, era só eu, a minha Canon 500D e quem estava à frente dela.


Havia muita comoção em todos os que estavam ali para ver o Fernando, havia rejubilo e atenção aos momentos que surgiam um atrás do outro. Era tão bonito ver as pessoas assim, de bem com elas mesmas, a tornarem-se vermelhas, verdes e amarelas. A subtraírem os rios da mente e deixarem as canoas navegarem pelos céus. Tão carismático ver amor e compaixão a confluir, porque desporto é desporto, faz-se por desporto e não por obrigação.


Cá em cima as coisas melhoravam e tomavam o seu rumo natural. Cada um registava o ponto de interesse e eu tornava-me os olhos de quem olhava mais à frente. 


A família do Fernando trazia o amor de Viana ao peito e como só uma verdadeira minhota o sabe fazer, espalha a sua ternura e compaixão com milhões de beijos para aqueles que estão ali só para ver e aclamar o seu filho. Porque, não há, amor maior, que de uma mãe.


Como será sentir no peito a emoção de ganhar uma prova nas Olimpíadas? Como será ter um público inteiro só para me aplaudir? Como será a sensação de vencer depois de muito batalhar? De que forma poderia eu dar mais orgulho aos meus pais se eles aceitassem o que quero ser? Será que um dia vou ter tanta gente a gostar de mim? Mas pelo que sou, ou pelo que conquisto?


O Hélio Lucas sabia bem o que havia feito para estar ali. E eu também sabia, porque ele tinha sido meu treinador. Quando se olha para as luzes, ou para o céu procura-se um agradecimento involuntário e inconsciente do presente momento. Quando isso acontece é um “agradecer aos céus” sincero e não pensado. Quer dizer na verdade, que só conseguimos fazer isso na procura de uma continuidade. Porque tudo o resto não percebe até que ponto vamos para atingirmos os nossos objectivos, o quão dispostos estamos de abdicar do comodismo, da segurança e da estabilidade para sermos maiores, mais felizes e mais capazes. Porque mesmo antes de percebermos conscientemente o que queremos, bem no nossos âmago já fizemos a escolha. Nessa noite não havia espaço para comunismo, capitalismo ou outras circunstâncias, havia necessidade de desfrutar o momento. Que pode ser fugaz e irrepetível. Daí a importância de o aproveitar na sua plenitude.


Não querendo ser completamente mordaz num único ponto de focagem, procurei outros, como demanda a lei natural da vida. Sei que nessa noite fotografei dois dos meus melhores amigos, no acaso, pelo acaso. Dois gémeos. A minha linda Ana. E o Vin Diesel limiano, o Hugo. Que sempre estiveram aqui quando mais precisei. E tudo vai correr bem. Eu prometo.


Às tantas captei o sorrisão do Sr. Pimenta. Quanta alegria não levava ele no peito. Um polegar para cima que agora é um mero “like” dizia muito mais do que diz hoje. Queria dizer “fixe – conseguimos”, este rapaz é meu filho! Pois bem sabemos Sr. Pimenta que sempre que nos levava às provas e desapareciam bolos, era uma cortesia de CSI, para apanhar os malandros. Ainda hoje me ensina muito, quando de repente estrago malas do carro em situações inóspitas. 


No meio da sobrecarga mediática consegui que o Fernando Pimenta, namorado da Joana Maria, e o Hélio Lucas que gritava por mim nas provas, cruzassem o olhar para a minha humilde câmara, para a Canon 500D da Sonecas e estagiária do Cardeal Saraiva, e me presenteassem com este registo intemporal. Que sincera alegria, que profundo agradecimento.


A projecção mediática era importante. Ele tornou-se importante assim. Do dia para a noite, sem eu contar. Sem eu perceber. Ficou no subconsciente. Na memória. Mas eu sabia bem lá no fundo que era coisa demasiada para mim. Daí me distanciar e reparar ao longe como as coisas ficam bonitas se a gente as deixar estar. Como elas voam e seguem o caminho que querem e que lhes é melhor, no final das contas.

No meu âmago sempre soube disso. Sempre soube que tudo que toco acabo por estragar. Por isso escolhi a profissão que escolhi, para apreciar sem me impor, para dar a conhecer sem alterar, para registar e não decompor.


Então segui a minha profissão, segui o Fernando até à Expolima, onde esperavam ainda mais pessoas e a sua vontade de ter um registo dele, nem que fosse numa assinatura de um pequeno segundo. Já estava a ficar cansada. Era muito de noite.


Virei-me e outra coisa me cativou o olhar. Um bolo que tinha muita mão mais do que máquina e que simplesmente agradecia, da forma mais bonita e sincera o feito de Fernando Pimenta: Parabéns – por tudo o que fizeste até hoje, por teres carregado aos ombros esse fardo enorme, por teres sido forte e te teres aguentado até hoje. .Parabéns. Obrigada por seres como és. É como fazer anos. É muito importante. Sê feliz.

Ao ir embora começou a chover e  raio de mim que não tinha levado guarda-chuva. Liguei à Gela, para me ir buscar, como sempre. Ela mandou mensagem: “Aqui” – porque ela poupa muito nas palavras (coisa que eu ainda não aprendi). E fui a correr com a máquina debaixo do casaco de linho de quando a minha mãe era nova. Mas tive de parar.



Que coisa que me fere. Que compaixão esta. O de ficar sobre a chuva para vender guarda-chuvas. De estar à espera que haja necessidade alheia. Saber que o ganha-pão é mais forte do que molhar a roupa, ficar doente e não sentir as mãos do frio. Amor ao que se faz, pelo que se faz e amor pelos que precisam do nosso trabalho para sobreviver.

Se pudesse voltar atrás, só mudava uma coisa:
Quando não controlei o que sentia
Não ter ficado à espera que o sentimento fosse mútuo e universal.

Porque não o é. Se fosse não haviam homens à chuva para nos vender guarda-chuvas.