Uma televisão na areia
Com os pés mergulhados na areia quente, sabia que tudo estava perdido, que todo o esforço não fora valorizado e que essa teima que me define não ajudou a desenlaçar a relação. Antes de tudo, nesta revisita, sentia-me grata por vivenciar todos aqueles momentos, frágeis e longínquos, cada vez menos detalhados. Espero que percebas que tenho vergonha de todo o transtorno causado. A ambos.
Um vento frio cobriu-me o rosto e resolvi entregar os meus cabelos às garras arenosas, cobertas de vapor de sal. Fechei os olhos para ver melhor e deixei que o meu cérebro se expandisse de visualizações. No final das contas havia alguma coisa que exercia a mesma força que o meu passado. Fiquei nostálgica como se olhasse programas d'outrora na televisão, às vezes a preto e branco, outras vezes a cores - mas com muito grão. Era um retorno aos anos em que o ouro me cobria o peito, o amor era sincero e se prolongava a vida toda. Gostei de saber que não precisava mais de desligar o botão desta máquina pois as memórias sabiam-me bem.
Consumi tudo o que havia naquela televisão, televisão essa que não precisava de energia para funcionar pois bebia da areia e dessa areia conseguia mostrar tudo aquilo que eu precisava de ver. Mesmo quando o que necessitava era de uma alienação da situação presente. Sei que agora vivo num programa de transmissão contínuo, que o meu público sou apenas eu e que o desabrochar de acontecimentos tem no cerne a minha personagem como principal, figurante e telespectadora.
Eu sou isso tudo, eu sou o espelho da exposição mediática, da absorção das imagens que mudam 24 vezes por segundo, num piscar de olhos.
Agradeço por me terem trazido este cenário, este espaço e esta interpretação. Sou reflexo dos meus sonhos, dos meus interesses e dos meus heróis. Sou como uma televisão na areia, que visualiza todas as memorias no campo visual eterno e cria múltiplas possibilidades utilizando como fonte energética a criatividade e a
imaginação.
Afinal...
Afinal tudo é possível.
